INSATISFAÇÕES CANÔNICAS AO LONGO DA HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

 

Luiz Roberto Cairo – UNESP/CNPq

 

Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos mais doutrinas tão absolutas que a empobreçam.

 

Machado de Assis: Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade, 1873.

 

 

Insatisfações com o cânone literário não parecem ser apenas traços da Pós-Modernidade e do multiculturalismo tão característicos deste final de século, ao menos se pensarmos no que ocorreu no Brasil, ao longo de sua história literária.

O cânone da literatura brasileira é fruto das discussões dos primeiros historiadores e críticos brasileiros que, após a independência política, em 1822, ocuparam-se com a construção de uma história do Brasil e a invenção de uma literatura que representasse a identidade da nação recém-surgida, seguindo assim as diretrizes do projeto oficial do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, com o apoio oficial do Imperador Dom Pedro II.

Estes críticos e historiadores inspirados nas idéias românticas européias estabeleceram um cânone para a literatura brasileira formado por autores e obras mais representativos do que entendiam por brasilidade, uma idéia geral do país baseada na necessidade de expressar características nacionais, diferenciando-se assim das origens das demais literaturas européias, cujos cânones eram marcados, conforme a leitura pertinente de João Alexandre Barbosa, por um forte apelo classicizante, dando como resultado uma rígida hierarquização de gêneros, raças e modelos culturais, que somente será abalada pelos movimentos multiculturais de anos recentes. (Barbosa, 1996, p.23)

Vale lembrar também que a literatura então era vista como parte da história geral, pois não possuindo um estatuto próprio que a definisse e não gozando portanto de autonomia, enquanto ramo do conhecimento, estava a serviço da história.

Nesta relação de dependência da literatura frente à história, restou à crítica literária a função de indicar a relação de necessidade entre uma e outra (Barbosa, 1990, p. 41), pois criticar era interpretar os produtos culturais em função de uma idéia geral do país que, por sua vez, está firmada na necessidade de conferir características peculiarmente nacionais àqueles produtos. (1990, p. 63)

Quando em 1888, quase cinqüenta anos depois, Sílvio Romero publicou a História da Literatura Brasileira, o conceito de literatura aí encontrado é bastante abrangente, o que nos leva a pensar nesta primeira história da literatura como uma verdadeira história da cultura e da civilização brasileira.

Literatura, para Sílvio Romero, compreendia todas as manifestações da inteligência de um povo: – política, economia, arte, criações populares, ciências... e não, como era de costume supor-se no Brasil, somente as intituladas belas-letras, que afinal cifravam-se quase exclusivamente na poesia!... (Romero, 1980, 1, p. 58)

Conseqüência desta visão ampla que abarcava como literatura textos de cultores de todos os gêneros (poesia, teatro, romance, conto, eloqüência, história, crítica, filosofia), tanto os tidos comumente como literários quanto não-literários, como as denominadas produções de cunho científico, o cânone da história da literatura brasileira de Sílvio Romero amplia sensivelmente o original estabelecido por Francisco Adolfo Varnhagen, quando da publicação, em 1850, do Florilégio da Poesia Brasileira, a mais famosa das antologias elaboradas pelos críticos românticos brasileiros.

Na verdade, a abrangência deste conceito de literatura, como disse Antonio Candido, ao analisar o método crítico de Sílvio Romero, tinha por finalidade:

 

(...) analisar a situação cultural brasileira, com vistas a uma reforma intelectual, ligada à reforma social, ele se viu de certo modo obrigado a estender demasiadamente o conceito de literatura, até fazê-lo englobar todos os produtos de criação espiritual, da ciência à música. Na prática, todavia, diferençou devidamente os setores aos quais se dedicou: filosofia, sociologia, etnografia, folclore. Mas ainda assim os incluía sempre nos seus panoramas literários. (Candido, 1978, p. XVIII).

 

Em 1912, José Veríssimo termina de escrever aquela que seria a segunda história da literatura brasileira, somente publicada após sua morte, em 1916. Nela, registra-se um enxugamento do cânone literário decorrente do conceito de literatura aí expresso.

Literatura reduz-se então a arte literária, pois para ele:

Somente o escrito com o propósito ou a intuição dessa arte, isto é, com os artifícios de invenção e de composição que a constituem, é, a meu ver, literatura. Assim pensando, quiça erradamente, pois não me presumo de infalível, sistematicamente excluo da história da literatura brasileira quanto a esta luz se não deva considerar literatura. Esta é neste livro sinônimo de boas ou belas-letras, conforme a vernácula noção clássica. Nem se me dá da pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura compreende tudo o que se escreve num país, poesia lírica e economia política, romance e direito público, teatro e artigos de jornal e até o que se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e histórias populares, enfim autores e obras de todo o gênero. (Veríssimo, 1969, p. 10)

 

Ainda neste mesmo texto, José Veríssimo lamenta que, na sua história, o paradigma esteja tão marcado por muitos nomes que poderiam ser omitidos pelo fato de pouco ou quase nada representarem. Procedendo assim uma avaliação estética, ao mesmo tempo em que lança um desafio aos críticos e historiadores posteriores, ao propor que uma seleção mais rigorosa é trabalho para o futuro. (1969, p. 13)

Refletindo sobre o critério por ele mesmo adotado, que levava em conta, além do valor estético, a permanência da tradição literária no presente, disse:

 

A história da literatura brasileira é, no meu conceito, a história do que da nossa atividade literária sobrevive na nossa memória coletiva de nação. Como não cabem nela os nomes que não lograram viver além do seu tempo também não cabem nomes que por mais ilustres que regionalmente sejam não conseguiram, ultrapassando as raias das suas províncias, fazerem-se nacionais. Este conceito presidiu à redação desta história, embora com a largueza que as condições peculiares à nossa evolução literária impunham. (1969, p. 13)

 

No entanto, constata, com um certo desalento, que, na sua história da literatura, havia um número significativo de escritores mortos, registrando assim que:

 

Por um mau patriotismo, sentimento funesto a toda a história, que necessariamente vicia, e também por vaidade de erudição, presumiram os nossos historiadores literários avultar e valorizar o seu assunto, ou o seu próprio conhecimento dele, com fartos róis de autores e obras, acompanhados de elogios desmarcados e impertinentes qualificativos. Não obstante o pregão patriótico, tais nomes e obras continuaram desconhecidos eles e elas não lidas. Não quero cair no mesmo engano de supor que a crítica ou a história literária têm faculdades para dar vida e mérito ao que de si não tem. Igualmente não desejo continuar a fazer da história da nossa literatura um cemitério, enchendo-a de autores de todo mortos, alguns ao nascer. (1969, p. 12)

 

No processo histórico da história da literatura brasileira, durante muito tempo, percebe-se a permanência de um cânone literário marcado por um critério de cunho meramente quantitativo, cujo objetivo parece ter sido apenas afirmar a existência de uma herança literária nacional cumulativa.

A década de 50 do século XX é marcada por releituras da história da literatura brasileira que resultaram em textos hoje emblemáticos como por exemplo: A literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho (1956), Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido (1959), Prosa de ficção: de 1870 a 1920, de Lúcia Miguel-Pereira (1950), dentre outros, que não só discutem questões referentes ao conceito de literatura brasileira e da periodização de sua história, mas provocam algumas alterações no cânone, ao desviarem o olhar dos leitores para textos até então despercebidos ou mesmo desconhecidos, haja vista a inclusão do romance Dona Guidinha do Poço, de Manoel de Oliveira Paiva, pronto para ser editado desde 1892, e somente publicado em 1952, graças ao resgate feito por Lúcia Miguel-Pereira, na obra citada, assim como a releitura dos poetas árcades mineiros realizada por Antonio Candido, realçando a presença dos mesmos até então desconfortavelmente tênue, na tradição literária nacionalista brasileira.

Na verdade, o olhar mais radical sobre o cânone da história da literatura brasileira, vai ocorrer, quando Haroldo de Campos expressa sua insatisfação em três pequenos ensaios intitulados “Poética sincrônica”, “O samurai e o kakemono” e “Apostila: diacronia e sincronia”, publicados em 1969, sob o rótulo “Por uma poética sincrônica”, na última parte do livro A arte no horizonte do provável.

Numa releitura marcada, principalmente, pelas idéias poundianas extraídas de ABC of Reading (1934), sob um critério de cunho puramente estético, Haroldo de Campos propõe a elaboração de uma Antologia da Poesia Brasileira da Invenção, em cujo cânone figurariam apenas os poemas de Gregório de Matos, os árcades Tomás Antonio Gonzaga (Cartas Chilenas), Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto, um trecho do poema “Carta a João de Deus Pires Ferreira”, conhecido como “Diálogo com o Tritão”, de autoria do Padre Sousa Caldas, as traduções de Odorico Mendes, os românticos Sousândrade, Gonçalves Dias (o poema “O leito de folhas verdes”), Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães (o poema “A orgia dos duendes”), os simbolistas Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Pedro Kilkerry e a obra de Quorpo Santo.

Posteriormente, em outro pequeno ensaio intitulado “Texto e história”, publicado em A operação do texto, investe contra o cânone da literatura brasileira de forma mais contundente ao dizer que:

 

O estatuto do historiador literário brasileiro é, por assim dizer, um estatuto dilacerado e dilacerante. Confrontado com um panorama diacrônico onde são raros os momentos de altitude, este historiador oscila entre a melancolia do profissional que não encontra um objeto satisfatório para o exercício de seu métier e a indulgência do fideicomissário que procura valorizar os bens sob sua custódia. (Campos, 1976, p. 13)

 

Neste mesmo texto, lança a idéia de uma possível História Textual, que toma o “texto”caracterizado por seu “conteúdo informativo” (suas componentes inventivas), como ponto fulcral e privilegia uma visada sincrônica. (1976, p. 18)

Assim procedendo, estabelece um cânone bastante enxuto para a história do romance brasileiro, onde apareceriam apenas: Memórias de um sargento de milícias (1854-1855), de Manoel Antonio de Almeida, Iracema (1865), de José de Alencar, O Ateneu (1888), de Raul Pompéia e Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), de Machado de Assis.

No início dos anos 80, com a chegada dos primeiros sinais do multiculturalismo, o crítico Roberto Schwarz organizou uma curiosa antologia composta de ensaios de críticos das mais variadas tendências unidos por uma questão comum: como se define e representa a pobreza nas letras brasileiras? (Schwarz, 1983, p. 7)

O livro, cujo título é Os pobres na literatura brasileira, provoca indiretamente uma revisão nos critérios de seleção de autores e obras constantes no cânone da literatura brasileira, na medida em que levou os críticos que participaram do projeto a deslocarem a ótica de suas reflexões para outro polo que não o marcado pelo banho formalista (1983, p. 8) que dominou a cena acadêmica brasileira na década de 70. Deste modo, revelou-se através dos textos escritos a sessenta mãos que as crises da literatura contemporânea e das sociedades de classes são irmãs e, por conta disso, a situação da literatura diante da pobreza é uma questão estética radical. (1983, p. 8)

Nos anos 90, são cada vez mais constantes as insatisfações com o cânone literário, resultantes de desconstruções de conceitos como o de literariedade, num passado recente, verdadeiro divisor das águas entre os discursos literários e não-literários, de valores como o estético que passa a ser visto como apenas um dentre outros.

Neste momento de passagem para o século XXI, quando são publicados ensaios, como “Escalas & ventríloquos”, de Flora Süssekind, apresentando um balanço das publicações literárias brasileiras da última década, e antologias como Cinco Séculos de Poesia, de Frederico Barbosa, que revisita o paradigma da tradição clássica brasileira, combinando, no dizer de Haroldo de Campos, didaticamente, na escolha de autores e poemas, uma percuciente leitura sincrônica e um sentido diacrônico de relevância contextual e histórico-literário, (Barbosa, 2000) e Os cem melhores contos brasileiros do século, de Ítalo Moricone, que oferece um vasto panorama da narrativa curta, refletindo de maneira sensível as transformações ocorridas no horizonte de expectativas do leitor brasileiro do século XX, é curioso observar as considerações feitas por Afrânio Coutinho, no “Prefácio da Primeira Edição”, de A Literatura no Brasil, texto de 1955, a respeito de questões como ausência de tradição, alienação do escritor e divórcio com o povo, vistas como características na evolução da literatura brasileira[1], que já antecipavam as insatisfações recentes.

A ausência de tradição, resultado da oposição entre uma tradição importada e uma eventual tradição nova, conduziu a literatura brasileira a uma antropofagia das gerações (Coutinho, 1986, 1, p. 36-37), que, por sua vez, gerou o descompromisso do escritor:

 

Divorciado de uma tradição, diz Afrânio Coutinho, o homem de letras sente-se separado dos predecessores, que ignora, da sociedade, que o desconhece, ou dos seus pares, a que não presta atenção. É um desterrado em sua própria terra. É marca indelével de nossa vida intelectual a completa desatenção do escritor ao trabalho dos outros escritores, passados ou contemporâneos. Resultam o isolamento e o marginalismo em vida, e o esquecimento rápido com a morte, como se se construísse sobre a areia. E resulta a impressão de que as obras são feitas de espuma, desaparecendo com o tempo. (1986, 1, p. 37)

 

Por outro lado, no desprezo existente entre os escritores, Afrânio Coutinho viu, com muita clareza, um equívoco:

 

a literatura é produzida na intenção deles. É literatura requintada, feita por uma classe para o divertimento dessa mesma classe, levando-se em conta o enorme abismo que separa elite e povo no Brasil, elite cultivada e dona da vida, povo distante, analfabeto e deserdado. Esse povo jamais foi atingido pela literatura destinada a um público reduzido, de classe. Há, todavia, sinais de transformação, com o acesso da massa ao poder político, econômico, social, e à posse da cultura. Mas o risco perdura, pois a ninguém será permitido asseverar que essa ascensão não se fará em detrimento dos valores estéticos, com um desnivelamento dos padrões de cultura para adaptar-se às exigências da mesma massa. Assim, o conflito entre as tendências highbrow e lowbrow se resolveria por baixo. O divórcio com o público resultou em uma literatura a que falta o público. Esse divórcio acentua com o desenvolvimento dos órgãos de cultura de massa, apesar dos benefícios indiretos que propiciam. (1986, 1, p. 37)

 

Tudo indica, portanto, que as insatisfações canônicas da literatura brasileira continuam estando na permanência de uma verdadeira tradição do impasse, expressão cunhada por João Alexandre Barbosa, no ensaio exemplar sobre o método crítico de José Veríssimo.

 

Referências Bibliográficas:

 

BARBOSA, J.A. A biblioteca imaginária. São Paulo: Ateliê, 1996.

_____. A leitura do intervalo. São Paulo: Iluminuras/Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

BARBOSA, F. (Sel. e Introd.) Cinco séculos de poesia (Antologia da poesia clássica brasileira). São Paulo: Landy, 2000.

CAMPOS, H. de. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1969.

_____. A operação do texto. São Paulo: Perspectiva, 1976.

CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. São Paulo: Martins, 1971, 4. ed., 2 vv.

_____. Sílvio Romero: teoria, crítica e história literária. Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: EDUSP, 1978.

COUTINHO, A. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro-RJ: José Olympio; Niterói-RJ: EDUFF, 1986, 3. ed. rev. e ampl., 6 vv.

COUTINHO, E.F. Comparativismo e historiografia literária. Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS. Vol. 4, N°. 2. Porto Alegre-RS: EDIPUCRS, p. 30-33.

_____. Fronteiras imaginadas: o comparatismo e suas relações com a teoria, a crítica e a historiografia literárias. Leituras do ciclo. (Orgs. ANDRADE, A.L., CAMARGO, M.L.de B. e ANTELLO, R.) Florianópolis-SC: ABRALIC; Chapecó-SC: GRIFOS, 1999, p. 247-254.

MIGUEL-PEREIRA, L. Prosa de ficção: de 1870 a 1920. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília-DF: INL-MEC, 1973, 3. ed.

MORICONI, Í. (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro-RJ: Objetiva, 2000.

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SCHWARZ, R. Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.

SÜSSEKIND, F. Escalas & ventríloquos. Folha de São Paulo, Mais!, N°. 441. São Paulo-SP: Folha da Manhã, 23 de julho de 2000, p. 4-11.

VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987, 3 tt.

VERÍSSIMO, J. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969, 5. ed.



[1] As demais características apontadas eram: predomínio do lirismo, exaltação da natureza, ausência de tradição, alienação do escritor, divórcio com o povo, ausência de consciência técnica, culto da improvisação, literatura e política, imitação e originalidade, e metrópole e província.